Levou apenas três segundos ouvindo o primeiro álbum de Demi Lovato, “Don’t Forget“, para ela contar o que ela é. “Eu sou confiante, mas eu ainda tenho os meus momentos / Baby, essa sou eu”, ela canta sobre os licks de guitarra na faixa de abertura, “La La Land“. Isso dá início a três minutos de autodeclaração: ela é uma garota que come McDonald’s, usa Converse e se recusa a ser mastigada pela “máquina de Los Angeles”. Essa é uma afirmação ousada de uma adolescente que acabou de se tornar uma sensação da noite para o dia através do império Disney, mas introduziu Demi de uma forma totalmente autêntica – e nos deu o modelo para o que se tornaria uma carreira inteira baseada em declarações ousadas.

Don’t Forget” comemora seu décimo aniversário em 23 de setembro, marcando uma década de Lovato no pop. Essa década foi, simplesmente, uma montanha-russa, entre lançar seis álbuns e traçar quatro hits no Top 10, ela combateu abertamente o vício e a doença mental, e recentemente entrou em reabilitação após uma overdose assustadora em julho. Essa é mais uma razão para os fãs revisitarem e celebrarem a música de Lovato, que ela apresentou ao mundo com uam voz que chamou atenção.

“O talento de Demi é totalmente responsável por ela ser capaz de evoluir”, disse Jon Lind, responsável por novos talentos e desenvolvimento e que moldou os três primeiros álbuns de Lovato na Hollywood Records. “Quero dizer, [a voz dela] não é tímida, essa é a última coisa que você diria. Basicamente é como ‘aparafuse a mobília do chão, eu sou Demi Lovato”.

Uma estrela criada pela Disney

Como Hilary Duff e Miley Cyrus antes dela, a carreira pop de Lovato coincidiu com sua ascensão como uma estrela do Disney Channel. Depois de uma temporada na curta-metragem de comédia “Quanto Toca o Sino“, ela conseguiu um papel de protagonista em Camp Rock, a resposta liderada pelos Jonas Brothers ao High School Musical. Lovato, com 15 anos, interpretou Mitchie, uma borbulhante campista cuja voz ganha uma estrela pop mimada interpretado por um dos Jonas Brothers, Joe Jonas. O filme tornou-se a transmissão a cabo de entretenimento mais assistida de 2008, e assim nasceu o fenômeno Demi Lovato.

Mas mesmo antes da estreia de Camp Rock, Lovato estava sendo posicionada como a próxima super estrela da gravadora do Disney Music Group, a Hollywood Records. Enquanto filmavam o filme em Toronto em 2007, os Jonas Brothers – Kevin, Joe e Nick – estavam gravando simultaneamente seu terceiro álbum, A Little Bit Longer, com o produtor John Fields. Um dia, eles trouxeram Lovato para o estúdio e a apresentaram para Fields, que ficou imediatamente impressionado com a risonha adolescente criada no Texas que listou todos, de Bright Eyes à Aretha Franklin, como suas inspirações.

“Eu me lembro dela naquele estúdio, sentando-se com um violão e tocando a música mais incrível para nós”, disse Fields ao MTV News. “Era como Joni Mitchell; acordes escuros e esquisitos – não é de maneira alguma uma música pop. Eu estava tipo, esse é um outro nível incrível”.

Quando a Hollywood Records adicionou Lovato à sua lista no final daquele ano, os Jonas Brothers aproveitaram a chance de co-escrever e co-produzir seu álbum com Fields. Era óbvio que a gravadora iria os envolver porque, como Lind explicou, “havia um modelo já embutido”, eles eram amigos, compartilhavam o mesmo empresário e já haviam começado a compor músicas juntos no período de inatividade de Camp Rock. Para não mencionar, os irmãos já eram estrelas globais e suas músicas se encaixaram com o público da Disney.

“Tudo funcionou perfeitamente. Não foi como sentar no meu escritório e pensar, ‘agora quem vai trabalhar com Demi Lovato?'”, explicou Lind, acrescentando que o talento de Jonas para escrever músicas “engraçadas, divertidas e honestas” era algo que a gravadora queria mais de seus artistas. “Eles mesmos escreveram essas canções, havia um som dos Jonas Brothers. É por isso que essas coisas são novas e bem-sucedidas. Assim, o primeiro disco da Demi não é uma gigantesca fabricação de A&R, foi sobre capturar algo real”.

Pronta para arrasar

Não apenas isso, mas o gosto de Lovato como artista deu-lhe uma vantagem: ela tinha um ouvido para o pop-rock punk que a elevava acima de seus colegas da Disney e a tornava mais comparável com Paramore do que a Ashley Tisdale. O empresário de longa data de Lovato, Phil McIntyre, explicou no documentário da cantora em 2017, Simply Complicated: “Havia uma vantagem natural nela que a tornou autêntica e convincente como atriz ou artista. Acho que a Disney precisava que ela fizesse seus projetos serem mais autenticos”.

Fields acrescentou: “Ela poderia ter dito facilmente: ‘eu quero fazer um disco de 40 músicas como Christina [Aguilera]’, mas não, ela queria rock. Então nós começamos a tocar guitarras e eu acho que a primeira música que nós produzimos foi “La La Land” e isso definiu a sonoridade”.

Don’t Forget traz 11 músicas em 38 minutos, mas dá um soco. Frenéticas e barulhentas como “Get Back” e “Gonna Get Caught” dão a Lovato uma saída para seus problemas com os garotos. A faixa-título favorita dos fãs começa como uma balada despojada antes de aumentar o volume (Fields disse que foi parcialmente inspirada por “Lovebug” dos Jonas Brothers, que similarmente se transforma em um hino do rock). Mas talvez a melhor vitrine de sua habilidade vocal seja “The Middle”, uma faixa emocionante e cativante que Lovato uma vez nomeou como sua faixa favorita por causa das notas que ela conseguiu atingir.

Kara DioGuardi, que co-escreveu “The Middle” ao lado de Fields e Jason Reeves, disse à MTV News: “Eu me lembro de quando eu estava cantando a demo, eu pensei que ia estourar um acorde vocal. Foi tão alto, e é assim que eu sabia que era a música perfeita para Demi. Se alguém pudesse cantar, seria ela”.

“Don’t Forget” foi gravado em maio de 2008 no estúdio de Fields em West Hollywood. Embora Lovato estivesse maluca na época – fazendo malabarismos entre gravar suas músicas e seus horários de filmagem – Fields descreveu como um tempo de “baixa intensidade”. Isso é, em parte, graças ao seu relacionamento e fluxo de trabalho já estabelecidos no estúdio, juntamente com o profissionalismo ajustado de Lovato.

“Ela estava pronta para isso”, disse Fields sobre a mentalidade de Lovato na época. “Ela nasceu pra isso. Uma artista desde que nasceu e apenas uma das melhores cantoras com quem já trabalhei. E mesmo assim, quando ela tinha 14 ou 15 anos, ela poderia cantar harmonias e improvisos incríveis. Ela estava realmente a frente do seu tempo”.

O hype é real

Após seu lançamento em 23 de setembro de 2008, Don’t Forget alcançou o número 2 na Billboard 200 e passou 45 semanas no chart. Os três singles do álbum – “La La Land”, “Get Back” e “Don’t Forget” – foram lançados na Rádio Disney, mas não entraram no Top 40… ainda.

“A oportunidade para ela crescer veio desse primeiro álbum, o que é um milagre, porque não tinha um Top 40 single e nós vendemos 600 mil cópias do álbum”, explicou Lind. “Por quê? Porque era real, para as 600 mil pessoas que saíram e compraram. Dizem algo para elas que foi mais do que apenas um sucesso que ouviram. E essa é a base dos fãs dela. Eles se importam com ela, eles a amam”.

Esse amor só aumentou mais quando o poder de estrela de Lovato cresceu. Seu segundo trabalho, “Here We Go Again”, de 2009, estreia menos de um ano depois, no primeiro lugar. Naquela época, uma sequência de Camp Rock já estava em desenvolvimento, sua comédia Sunny Entre Estrelas foi um sucesso e seu apelo rockstar foi testado na estrada em uma turnê com os Jonas Brothers e na sua turnê solo. No caso de Lovato, ela valia o hype que a Disney colocou nela desde o primeiro dia. Que irônico, então, que seu lema durante sua ascensão ao estrelato foi uma surpreendente e cautelosa abordagem semi-pessimista da fama.

“O único lema que ficou preso comigo foi: ‘não acredite no hype'”, disse Lovato à MTV News em entrevista de 2008, no verão anterior a estreia de Don’t Forget. “Você pode escutar totalmente tudo o que as pessoas estão dizer, ou ser esmagado, ou ter uma grande cabeça. E você pega tudo como um grão de sal e diz: ‘Uau, as pessoas estão me chamando da próxima Miley'”. Isso é uma grande honra, mas eu não quero deixar isso subir à minha cabeça, porque se isso não acontecer, eu não quero ser esmagada. Então é como se você se concentrasse no que você ama fazer, ser você mesmo e isso não deve mudar nada”. E certamente não mudou.